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Velocidade de Cruzeiro

EXPOSIÇÃO | 26 maio - 27 ago. ’21 | Galeria Piso 1 | Entrada livre

> As visitas à BNP obrigam à desinfeção das mãos e à medição da temperatura à entrada do edifício e ao uso de máscara até à saída das instalações

Celebrando o centenário do nascimento de Cruzeiro Seixas, a BNP apresenta uma seleção de 144 obras, maioritariamente produzidas entre os anos 40 e 70, que integram o vasto espólio, de mais de 400 desenhos e variada documentação, que o artista generosamente entregou a esta instituição em 1993.


Artur Cruzeiro Seixas deixou-nos há breves meses, à beira de completar o século de vida, coincidente, afinal, com aquele em que se desejaram, na arte como na literatura, todas as transformações, todas as revoluções, entre as quais a surrealista que, mesmo se tardiamente, ele abraçou com paixão e dedicação exemplares.


A obra de Cruzeiro Seixas, justamente pela invenção que foi, na arte portuguesa, apenas sua, de um espaço plástico singular, onde se encenam uma espécie rara de dramas metafísicos, e em que, isoladas entre si, as figuras parecem aspirar a uma comunicação impossível, já que esbarram, sempre, nas invisíveis fronteiras de um limite intransponível, decerto por isso foi conquistando aos poucos o espaço de uma singularidade que faz dele um dos protagonistas da arte portuguesa do seu século, apesar do reconhecimento tardio e assente em pequena convicção. Nesse silêncio grave, que as inunda da mais misteriosa solidão, creio impossível não entender e aperceber, mesmo como sua génese, a imagem refratada, secreta quase, do que, na verdade, alude a um tempo político português. O do salazarismo, onde os corpos eram inscritos, individual e coletivamente, das marcas opressoras do silenciamento compulsivo. Silêncio pesado, grave, contundente, que fazia de cada sinal uma ameaça, de cada olhar uma suspeita, de cada gesto, motivo de temor. Onde a própria experiência da sexualidade, hétero ou homo, foi varrida até às margens escondidas da vergonha, ou da perversão. E onde tudo era interiorizado até às vísceras.


Fica, pois, como exemplar criador de um singular corpo de imagens que pouco devem a antecedentes, e que pertencem, de facto, e sem favor, ao campo vasto da segunda vaga do Surrealismo internacional, onde avultam igualmente, ou sobretudo, os seus magníficos objetos, ainda hoje muito pouco conhecidos, mas que, só por si, integram, e ao mais alto nível, um dos mais originais momentos dessa arte. Sendo obra difícil, complexa, misteriosa, ela precisa, porém, de tempo para poder descolar-se de certa imagem de marca a que ficou ligada, apesar dela, de um surrealismo à portuguesa, de que quiseram rapidamente reduzi-la a emblema, já que é, em si mesma, muito mais do que isso.


E por isso, agora que o artista nos deixou, e que resta dele apenas o registo da sua obra, vemos chegado o tempo de olhar para ela com os renovados olhos do futuro. De a rever, portanto, no plano histórico a que, por direito, pertence deixando que nele possa enfim explodir em plena luz, e já sem preconceitos. De a estudar e de, enfim, sermos capazes de ver nela o que a transcende relativamente a um tempo que a não podia entender e que, depois, já na ressaca desse desentendimento, perdeu o lugar próprio para a sua plena afirmação, como aconteceu também com outros que, falhado o seu tempo, por falta de o haver, ficaram longamente esquecidos e mergulhados numa espécie de silencioso limbo. Até porque nela estão visíveis as raízes de uma opressão que, evidentemente, ainda não se dissipou totalmente, e que, todavia, persiste em hábitos ocultos na carne e no imaginário portugueses. Olhá-la de frente talvez nos permita, enfim, libertarmo-nos deles por uma vez para vivermos uma vida mais plena e um outro destino.

 

Dezembro do ano da peste de 2020,  
Bernardo Pinto de Almeida

 

Cabeçalho: pormenor de fotografia de Cruzeiro Seixas por Eduardo Tomé, 1974 (© Eduardo Tomé)